sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DA FAVELA: A VOZ QUE NÃO SE CURVA

C | O | L | U | N | A |  MARIANE HELENA | São Paulo - SP

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“A tontura da fome é pior que a do álcool.
A tontura do álcool nos impele a cantar.
Mas a da fome nos faz tremer.

Percebi que é horrível só ter ar dentro do estomago.”

Carolina Maria de Jesus, semianalfabeta, negra e favelada. Mãe de três filhos, nunca se casou. Escritora, revolucionou sua época, não apenas por ser uma exímia literária, tendo acesso apenas aos papéis que recolhia nos lixões, mas também por ser uma figura que trouxe a conscientização social.
Na capital paulista, ganhava seu sustento e de seus três filhos catando papéis. Apesar de ter muito pouco estudo, tinha enorme gosto pela leitura e pela escrita, lia livros, jornais e revistas que catava nas ruas e separava o que poderia servir como caderno de notas, onde escreveu os diários mais tarde publicados.
Por meio de sua escrita de contestação, Carolina revela a importância do testemunho dos marginalizados, como forma de denúncia sociopolítica de uma cultura que exclui. Sua obra “Quarto de despejo”, resgata e delata uma face da vida cultural brasileira no início da modernização da cidade de São Paulo e do surgimento de suas favelas.
Carolina Maria de Jesus tornou-se famosa na década de 60 ao publicar "Quarto de Despejo: diário de uma favelada" (1960), em que narra o cotidiano de pobreza e fome vivenciado por si mesma e os demais moradores da favela do Canindé.
Ela criou a literatura das vozes subalternas, inspirou diversas expressões artísticas, como a letra do samba "Quarto de despejo", de B. Lobo; o texto em debate no livro "Eu te arrespondo Carolina", de Herculano Neves; a adaptação teatral de Edy Lima e o filme "Despertar de um sonho", realizado pela Televisão Alemã, utilizando a própria Carolina de Jesus como protagonista.
Além do já citado "Quarto de Despejo", assim intitulado, pois dizia ser a favela o quarto de despejo da sociedade brasileira, publicou também "Casa de Alvenaria" (1961) e "Pedaços de fome" (1963) e ainda os livros póstumos "Diário de Bitita" (1986) e "Meu estranho diário" (1996). Seus livros foram traduzidos para mais de treze idiomas.
Referência! Uma mulher geniosa, inquieta, explosiva, atrevida, petulante, ousada, corajosa, arredia e rebelde. Não parava em nenhum emprego, era demitida ou se demitia, pois era “capaz de questionar e desafiar autoridades”. A audácia lhe rendeu o apelido de “língua de fogo”. Sem meias palavras, Carolina rasgava a verdade das minorias. Gritava em alta voz tudo que era abafado nos becos de esgotos a céu aberto, atacando diretamente o governo na maioria de seus textos. Realidade viva e vertente até os dias hoje, embora maquiada.

E foi essa favelada, semianalfabeta, catadora de lixo, que vendeu mais de um milhão de livros só no exterior! Hoje está esquecida pelo os brasileiros, mal se conhece o nome dessa grande mulher. Talvez, (aparentemente) os poderosos tenham conseguido lhe calar, porém a voz do povo jamais se calará! Atualmente suas ideias e o seu empoderamento continuam gerando uma mobilização marginal, daqueles que não se moldam à realidade em que foram concebidos e continuam sonhando alto, conquistando patamares supostamente inalcançáveis, obtendo acessos às mídias e assim perpetuando o legado daquela que contrariou as estatísticas, mudou sua história e trouxe à tona a nossa verdade.

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