domingo, 13 de novembro de 2016

A CULTURA BRASILEIRA E A INDÚSTRIA DE TIPOS NACIONAIS

C | O | L | U | N | A |  SANDRO GOMES | sandrorevisor@hotmail.com

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Ao longo dos primeiros séculos de colonização, os indígenas do Brasil foram vistos, ora como ameaça, ora como possíveis aliados no enfrentamento das hostilidades do meio ambiente tropical. Só a partir do século XVIII passam a ser considerados em função de suas possibilidades de colaboração e participação no projeto colonial. A ideia de considerá-los súditos da coroa e entregar-lhes certas “obrigações” é muito corrente nesse período. Nesse contexto, sua condição de “selvagem” não é tomada como obstáculo, de maneira que sua origem cultural não invalida a possibilidade de inclusão no processo “civilizatório”. Essa visão culmina na adoção, pelos pensadores do romantismo brasileiro, do indígena como símbolo e reserva moral da nação, referência maior da pátria, idealizados na pena dos autores engajados num fundamento da cultura nacional, o que levou à criação de personagens até hoje lembrados, como Peri, Ceci, Iracema. A partir da segunda metade do século XIX, o império quer ombrear o país às grandes nações europeias, e a presença do indígena na cultura nacional vai se tornando um dado cada vez mais indesejado, uma espécie de mancha de que a nação se esforça para se desvencilhar, um inapto para o trabalho e incapaz de corresponder a pressupostos da modernidade burguesa, como a propriedade e o lucro.
Eles agora dão lugar a tipos diferentes, mestiços, originais e mais próximos da realidade cultural do país. O mestiço do interior brasileiro é agora um padrão a ser exaltado. Modelo de brasileiro simples, que cuida da terra, colabora para o desenvolvimento da nação e é cada vez mais visto como o tipo ideal porque reúne o melhor das raças formadoras, traço fundamental para lidar com a força do ambiente tropical. É por meio dessa ideologia que surgem figuras marcantes das letras nacionais, como o vaqueiro valente, o camponês honrado e o sertanejo forte, o país já distante das tribos e aldeias.
O final do século XIX se depara com grandes transformações. República, abolição, reforma urbanística na capital federal, advento da imprensa. O Brasil “civiliza-se” - como diz o lema que se populariza entre os intelectuais e jornalistas. O tipo agora predominante é o habitante dos grandes centros, letrado, elegante e polido, como manda o ideário das muitas Belles Époques nacionais. Este é o padrão que agora tratará de colocar o Brasil no rastro dos “tubarões” europeus.

Nesse contexto o homem do interior precisa juntar-se ao índio - tipo indesejado que o país conserva apenas no sentido de ancestral nobre ou integrante do folclore. Daí surge, por exemplo, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Cansado, doente, preguiçoso, o personagem com que se pretende simbolizar a realidade do interior do país é um tipo fraco, desprezado, ridicularizado em mídias poderosas da época, como o cinema. Devido a isso é condenado ao ostracismo num Brasil que flerta com a industrialização e precisa encher as grandes cidades de operários que um dia foram camponeses. E se você pensa que a indústria de tipos ideais se encerrou no brasileiro urbano da modernidade, basta pensar no padrão médio que ora se esboça nos meios de comunicação: o que não lê, muito tecla e consome, pouco tem a falar e não sabe que um dia pode se juntar aos seus antepassados, tal qual um tipo que um dia serviu como modelo de civilização, superado por outro.

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