sexta-feira, 14 de abril de 2017

HOTEL BARATO

Autor: A L E  S A F R A |  http://facebook.com/DedosNaoBrocham    

Ela esperava a chuva passar no bar, mesmo com um café mais aprumado bem ao lado. Não precisava ouvir dos homens rudes, de olhares lombriguentos, dando de si o melhor machismo de rebanho uns para os outros, aqueles remoques.

Mas ela não se importava. Observei-a até crescer uma vontade de cheirar as flores lilases do seu vestido preto. Convidei em gestos para a estranha molhada para subir. Mas deveria? Ela era suspeita apesar das coxas grossas. Apesar do decote. Da cintura frágil. Dos olhos baleiros.

“Para viver a felicidade é preciso reconhecer o momento, depois é saudade e culpa.” 

Fantasma me incentivando roubar da vida.

Não corri do flagrante quando ela me percebeu. Cabelos longos. Fartos de uma existência que aparentava trinta e poucos anos. Castanho ficou meu desejo. olhar descascado, sem brincos. Três anéis. Pulseira no tornozelo. Sem bote na fala, sem rodeios nas ideias, sem fé para correr. Ela apenas esperava algo. E seria óbvio demais dizer que era a chuva passar. E fácil demais ela aceitou subir. Parecia esperar a oportunidade.

Do alto do terceiro andar daquele hotel xexelento ofereci uma graça, ela aceitou. Era uma tarde modorrenta com chuva de verão e cheiro de mijo.

O centro de São Paulo tem ofertas. Eu tenho necessidades. todos parecem acomodados nessa lógica e se posicionam, as vezes consciente outras não. A janela ficou aberta e a chuva, quando muita, entrava suicida.

Liguei para a recepção e autorizei a subida da mosca. Olhei no espelho e o silêncio interno deixa fluir o que nasci pra ser. A campainha, ela entra e seu perfume de catálogo de revista só faz minha libido aumentar.

Ofereço água, mas ela olha para a cerveja. Ofereço toalha e ela se tranca por quatro minutos no banheiro. Deu tempo para olhar sua bolsa. Uma carteira com doze reais, sem documentos e dois cartões de crédito com nome chinês, um canivete suíço, camisinhas, bolsinha com batom e outros trecos, outra bolsinha com objetos que não tive tempo para ver. E um livro. Um livro interessante. Um livro que se tornou um elogio. Uma boa indi-cação de um amigo.

Uma ladra talvez, conclui ao ouvir o trinco da porta do banheiro.

Ela sai com os cabelos presos. Ofereço o melhor lugar do quarto: de frente para o ventilador. E a cerveja. E um cigarro. E meu corpo.

Ela não é prostituta. Não esta a procura de quem dê alguma coisa. Fala bem. Tem ideias oriundas de reflexão que partiram da pele. Tudo encantador. Vinte e oito anos, sotaque de paulistana da mooca. E aquela minha sensação estranha de que o externo não matrimoniava com o interno. Quem era aquela mulher que tentava ser invisível?

Ela quis saber de onde eu era, menti. Quis saber meu nome, menti. E minha profissão. Também menti. Queria saber muito, soube tudo, afinal, que importava dizer a verdade ou não? Tanto faz, pensei. E de um ser invisível para outro, o que realmente importava aconteceu, conexões. Ela adorava falar e as mais inconfessáveis situações de vida brotaram sem nomes e lugares de nossas bocas entre um beijo & mordidas. Entre tapas e palavrões. Entre cigarros & cervejas. Entre bucetas sem expectativas. Sem espera compartilhamos histórias.

Estelionatária. Me confessou depois do sexo, do cigarro e das cervejas. Esteve presa por uns anos. Seu filho que na época tinha dois anos morreu enquanto ela estava no presídio. Contou sem dramas, sem derramar uma lágrima. Sem ficar com os olhos no teto. Rio ao dizer que acabou de concluir ciências contábeis e que o mundo das finanças estava menos seguro e que essa era a proposta. E achei ótimo. E incentivei. Uma mulher bonita, inteligente e mal intencionada Foder com o sistema era pra brindar. Brindamos.

Foi sexo. Foi humano. Foi brisa. Roubamos o melhor uma da outra. E fomos boas nisso.

Não era uma mosca, era uma raposa castanha. Depois que saiu do quarto, ela subiu maliciosa as escadas. Arrumei minhas coisas, check out e trinta minutos depois estava em casa. Não soube mais daquela estelionatária que me usou para entrar no hotel e nos apaixonamos por cinco horas. Espero que esteja bem. conto essa história agora, neste outro quarto nojento do centro, onde mais uma foi embora sem valer um conto.

INQUISIÇÃO

Autor: D O M I N I Q U E   B E R F  | https://www.facebook.com/donamocapoesias

Trapos ensacados
Como vidas mal vividas.
Alegorias fingidas,
A pluma do saber.

Dos nossos filhos, amigos
Cristãos,
Sábios das torturas
Que perpetua toda a espécie
Em extinção.

Corpos enjaulados
Tristes, comovidos,
Comidos pelas trapas
Da inquisição.

Toda dor vigente
Em composturas
Em vão.

PEDÁGIO

Autor: A S S I Z  D E  A N D R A D E |  http://Facebook.com/AssizDeAndrade 

Uma hora para escrever. É tudo o que tenho. Todos os dias. 

Das quatro às cinco. E depois um choro, das seis às seis e quinze.

Embalada pelo pouco de cafeína que concentra o meu expresso barato, tento prosseguir com uma prosa - carregada de um inútil drama-, editar um romance - que já nasceu platônico - e refazer poesias que não durarão uma semana antes de serem corrompidas por um novo olhar.

Crônicas cotidianas: versões literárias da vida.

Todos os dias, em uma hora - exceto na folga, quando nada escrevo porque não trabalho. E para mim, a pena é a introdução do sacrifício diário. Se não há martírio, não há promessa - porque não há inspiração onde meu ócio habita. Ele é feito mulher frígida, crítica e invejosa, que passa os dias a classificar a vida dos outros por incapacidade de construir uma própria.  Nas datas livres eu apenas leio e a minha escrita vira uma religião sem mistério que, na falta de uma prática filosofia, se volta a condenar o paganismo alheio.

Não há poesia no meu descanso. Há apenas cansaço. A rebarba da vida que precisa do meio para se estender. É o próprio meio, a pausa para assimilar as regras do mundo, digeri-las pelo ácido das vontades e tomar o fôlego final antes de render-se aos seus efeitos.

Vem então o mundo: oito horas de labuta para cada hora de quimera, uma relação injusta para um cálculo frio e de resultado perverso, mas incorruptível. As horas trabalhadas são o pedágio que pago para seguir tendo a vista da miragem que dá acesso ao caminho imaginado. Um breve mergulho na ficção antes da conquista do pão que faz o estômago parar de roncar.

A cada manhã, eu tenho de ir ao inferno em sessenta minutos, debater desventuras com o diabo e voltar para mais um dia de trabalho escravo nas lavouras do comércio carioca.

E a força da iniquidade faz jorrar a ilusão.

Todo dia. Uma hora.

E mais quinze minutos de choro. Quando dá.

A IMITADORA DE GATOS

Autor: T A S S O  T E L L E S  C Â N D I D O | http://facebook.com/EscritorThiagoFranca

O incômodo absurdo de uma sensatez de nunca me encontrar alegre o suficiente para o dia.

Quando acordo pela manhã eu não consigo me sentir feliz, primeiro, vem o tédio da minha existência, depois vem o desânimo por estar acordado. Em seguida vem a raiva. É quando um processo de inspiração me arranha os pulmões. E a peça técnica da passagem dos meus dias reflete o flertar rotineiro que tenho com minhas ideias. Um minuto de discussão interna, para atear fogo no vulcão da minha imaginação e encerrar o drama com golpes de pinceladas numa tela.

Um repouso discreto diante do quadro que há meses tento pintar, de uma conjunção harmoniosa entre a loucura e o gesto imaginário de encarar a vida. Enquanto a incômoda posição das luzes que reflete dentro do meu quarto – um conjugado onde cabe uma cozinha e um banheiro – faz transparecer um conjunto desarmonioso que tento converter em traços de pincel.

Foi a forma que encontrei de interferir nos próximos sem precisar suportá-los. Nada tenho de emoção e minha civilidade é feito um felino acuado. Espantada, ela nunca faz amizades.

Ouço as três batidas na porta do quarto. Do lado de fora, Cristiane, no seu desenrolar faceiro de menina entregue ao ritmo caótico, sorri tristemente para mim quando a observo pelo olho mágico. Já dentro do quarto, passeia pelos cantos na busca de tentar desvendar-me através dos detalhes que deixo escapar nas coisas que largo pelos cantos. Objetos da minha culpada situação solitária.

Como em um ritual todo encenado, ela veste seu olhar com uma curiosidade minuciosa e observa atentamente cada objeto sobre a estante. O Cristo crucificado na parede a assusta, mas, depois, ela sorri. Conta atentamente os livros expostos, perde a conta algumas vezes e depois desiste. Com as mãos apanha os folhetos de propagandas que ganho pelas ruas – uma diversão que se alimenta da minha raiva – bule com as garrafas de bebidas, e critica – em movimentos estranhos com o rosto – os discos da minha coleção.

Ainda passeando no alto escalão de sua confiança, olha em meus olhos e, de graça, – como quem sabe a besteira que faz – beija-me os lábios. Com sua mão direita escorrendo pelo meu rosto, fecha os olhos e fica em repouso por alguns segundos. Um grande silêncio enche-me os ouvidos e, a partir disso, apenas sinto os movimentos – tantas vezes inesperados – que ela faz.

Caminha agora em direção à cozinha, senta-se em uma das cadeiras e apanha o maço de cigarros que está em cima da mesa, tira um, acende-o e, esticando ao fundo, dá sua primeira tragada.

É quando posso sentir sua inquietação. Surpreendida, Cristiane recai nos meus sonhos e com seus ruídos repousa em minha imaginação. Levando o melhor que tenho consigo – a imitadora de gato – divertindo-se, brinca com as horas distraídas que habitam em mim.

ÍRIS

Autor: P L I N I O  C A M I L L O  |  https://contosbombonsortidos.wordpress.com

Ele a pega com a mão em seu bolso. Agarra o pulso, faz um pequeno passo de dança no ar e a puxa.
Tranquila, obedece.
Não devia ter mais do que catorze. O esfregar da batata da perna o deixa intumescido. Ele sorri. Ela treme.
— Chamará Iris!! Gosta de alcachofra, minha flor?
Passeiam pelos cascalhos das ruas.
Entram em uma lanchonete
— O de sempre, doutor? — o do balcão traz um café de coador grande e um prato de brócolis, alho e óleo — E o que o broto quer?
— Iris, experimente as sementes de girassol. É muito bom!
— Essa é para criar raízes, doutor?
— Apenas outro botão...
Andam atados. Ele fala de bonsai, fungo, pássaros e estrume.
Ela tenta fugir.
Ele a aperta pelo punho.
— É para o meu jardim. — se justifica.
Chegando, mostra a estufa. Ela vê as outras flores. Na luz: a Acácia, Dália e a Margarida. No escuro: Magnólia, Rosa e Camélia.
Rendida.
Dias de aclimatação: Em uma tarde, ele rega. Em outra, aduba. Em outra, rega e aduba. Em outra, aduba e rega.
Descansa.
Recomeça: Outra tarde, rega. Em outra, aduba. Em outra, rega e aduba. Em outra, aduba e rega.
Cansa.
E ela não vinga.

Ele poda.

MORTE DENSA

Autor: F A B I A N O   M E N D O N Ç A | 

Ela colheu seu batom na manhã primaveril
tragando a ferrugem de meus olhos febris.
O entardecer se faz nas sebes decrépitas
decepando a tênue luz de nossa alcova.
Ela me deu um beijo
frêmito em seu devaneio.
De meu peito
sangrou o que de coração ainda não havia furtado,
escancarou as portas de minha solidão,
cerrou as de nossa já dantes finda paixão
e a noite findou-se em sua morte densa.